Comunidade: Uma Tecnologia Para Curar A Sociedade


“O melhor lugar para descobrir o que um homem é, é o coração do deserto. 
Teu avião se despenhou e caminhas durante horas, em direcção do pequeno forte em Nutchott. Esperas que as miragens da sede se abram perante ti. Mas chegas e descobres um velho sargento que esteve isolado durante meses entre as dunas e ele está tão feliz por ter sido encontrado que ele chora. E tu choras, também. Na arqueada imensidão da noite, cada um conta a história da sua vida, cada um oferece ao outro o fardo das memórias nas quais o laço humano é descoberto. Aqui dois homens se conseguem encontrar e eles doam prendas um ao outro com a dignidade de embaixadores.”
~ Antoine de Saint-Exupéry
As pistas estão todas ao nosso redor, porque nos problemas que se revelam podemos ver a sua solução e a sua origem, se pensarmos profundamente sobre as várias crises que se revelam na nossa sociedade conseguimos descobrir dois pontos comuns, que elas são globais e que elas são originadas pelos nossos relacionamentos. Na economia, na família, na educação, as crises sociais e na saúde, por exemplo, assim, abreviadamente podemos afirmar que todos os nossos problemas podem ser solucionados através da nossa conexão.

Tudo o que vemos ao nosso redor é na realidade um sintoma, um resultado de algo que tem vindo a ser perdurado na cultura ocidentalizada, os sistemas sociais, económicos, financeiros e outros são extremamente individualistas e coincidem com a nossa cisão com um factor que nos passou realmente despercebido, embora a maioria dos nossos sistemas sejam construídos através dele: a perda de comunidade.
Esta perda foi originada por um conjunto de factores entre eles o êxodo rural, não há uma necessidade de regressarmos a ele, apesar dos inegáveis benefícios de interagir com a Natureza, podemos trazer a comunidade para o meio citadino e com isso podemos perguntar, mas temos amigos e temos família, temos colegas de trabalho, porque então precisamos de uma comunidade?

Para responder a esta pergunta precisamos primeiro de saber os benefícios e a riqueza da comunidade.

Na sociedade pensamos geralmente que somos preenchidos pela compra de coisas, mas não compramos realmente coisas, compramos experiências, ou seja a experiência que determinado produto nos dá durante tempo limitado. A maioria dos produtos da era da informação é cada vez mais etérea, menos material.

Vendemos "conexão" nas telecomunicações mas a sensação de conexão é algo que não pode ser rentabilizado, é algo interior e é algo que devido à perda de comunidade é escasso e tentamos compensar com a grande maioria de produtos e experiências que compramos. Trocámos experiências interiormente gratificantes por produtos cuja gratificação termina assim que os obtemos.

Na presente crise queremos sobretudo ser valorizados e de sermos escutados sinceramente, sem julgamentos, mas para estarmos receptivos precisamos de valorizar, porque se não valorizarmos não vamos escutar independentemente da mensagem que nos estão a transmitir. Esta é na realidade a base de qualquer sociedade, a arte do debate democrático é baseado na capacidade de abdicar da nossa visão, fazer concessões para alcançar o consenso.

O meio para a cura social é a criação de pequenos círculos comunitários, cada grupo não deverá ter mais de 10 pessoas no máximo, de acordo com recentes pesquisas sobre atenção em salas de aula. Os grupos devem ser abertos à integração de novos participantes, isto permite-nos obter perspectivas sempre novas e a oportunidade de integrarmos com elas. A abordagem circular é terapêutica e também compatível com a visão global do mundo e pode ser aplicada em qualquer fundo, na educação, na empresa, na família, etc.

"Temos andado a brincar com as dádivas da tecnologia e da cultura, desenvolvendo estas dádivas. Mas agora estamos a chegar à idade adulta e é a hora de aplicá-las ao nosso verdadeiro propósito. No início, penso que será apenas curar os danos causados. E há muito para curar, na verdade.."
~ Charles Eisenstein

O seguinte é parte de um texto sobre um modelo para o desenvolvimento de comunitário da autoria de Charles Eisenstein, economista e líder comunitário.

Ele expõe principalmente os benefícios materiais da vida comunitária, embora hajam muitos mais benefícios de levar uma vida conectada, se queremos nos separar o cálculo baseado em lucrar dos outros que originou a presente crise, este tipo de abordagem não produzirá efeitos a longo prazo:
"Onde quer que eu vá e pergunte às pessoas o que falta nas suas vidas, a resposta mais comum (se elas não forem empobrecidas ou perigosamente doentes) é 'comunidade.' O que aconteceu à comunidade e porque não a temos mais? Há muitas razões, a estrutura dos subúrbios, o desaparecimento do espaço público, o automóvel e a televisão, a alta mobilidade das pessoas e empregos, e, se rastrear alguns níveis de 'porquês' abaixo, todos eles implicam o sistema monetário. 
Mais directamente dito: a comunidade é praticamente impossível numa sociedade altamente monetizada como a nossa. Isso é porque a comunidade é tecida com dádivas, que é derradeiramente porque as pessoas pobres frequentemente têm comunidades mais fortes que as pessoas ricas. Se você for financeiramente independente, então não depende realmente dos seus vizinhos, ou realmente de qualquer pessoa específica, para nada. Você pode simplesmente pagar a alguém para o fazer, ou pagar a outra pessoa para o fazer. 
Em tempos idos, as pessoas dependiam para todas as necessidades e prazeres da vida de pessoas que elas conheciam pessoalmente. Se você alienasse o ferreiro, cervejeiro ou médico locais, não haveria substituto. 
A sua qualidade de vida seria muito mais baixa. Se você alienava os seus vizinhos então pode não ter ajudado se tivesse uma entorse no tornozelo durante a época da colheita, ou se o seu celeiro tivesse ardido. A comunidade não era um acrescento à vida, ela era um modo de vida. 
Hoje, com ligeiro exagero, podíamos dizer que não precisamos mais de ninguém. Eu não preciso do agricultor que cultivou a minha comida, eu posso pagar a outrem para o fazer. Eu não preciso do mecânico que concertou o meu carro. Eu não preciso do camionista que comprou os meus sapatos na loja. Eu não preciso de qualquer das pessoas que produziram qualquer das coisas que uso. Eu preciso de alguém que faça o seu trabalho, mas não os indivíduos únicos. Eles são substituíveis e, pela mesma moeda, também eu sou.
Essa é uma razão para a superficialidade universalmente reconhecida de maioria das reuniões sociais. Quão autênticas podem elas ser, quando o saber inconsciente, 'Eu não preciso de ti,' rasteja sob a superfície? Quando nos juntamos para consumir, comida, bebida ou entretenimento, extraímos realmente as dádivas de alguém presente? Qualquer um consegue consumir. Intimidade vem da co-criação, não do co-consumo, como qualquer um numa banda lhe conseguirá dizer e é diferente de gostar ou desgostar de alguém. Mas numa sociedade monetizada, a nossa criatividade acontece em domínios especializados, por dinheiro. 
A comunidade é tecida de dádivas. Ao contrário do sistema de mercado de hoje, cuja escassez embutida incita a competição na qual mais para mim é menos para si, numa economia de dádivas o oposto é mantido. Porque as pessoas numa cultura de dádivas passam o seu excesso em vez de o acumular, a sua boa fortuna é a minha boa fortuna: quanto mais para si mais é para mim. Riqueza circula, gravitando para a maior carência. Numa comunidade de dádivas, pessoas sabem que suas dádivas eventualmente regressarão para elas, assim frequentemente sobre uma nova forma. Tal comunidade será chamada um "círculo da dádiva." 
Felizmente, o monetizar da vida alcançou o seu pico no nosso tempo e está a começar uma longa e permanente recessão (da qual a 'recessão' económica é um aspecto). Tanto por desejo e necessidade, estamos poisados num momento crítico de oportunidade para reclamar a cultura da dádiva e desta forma edificar verdadeira comunidade. A reclamação é parte de uma mudança maior da consciência humana, uma reunião maior com a natureza, terra, uns com os outros e partes perdidas de nós mesmos. Nossa alienação da cultura da dádiva é uma aberração e nossa independência uma ilusão. Não somos na realidade independentes ou 'seguros financeiramente', somos tão dependentes como antes, só que de instituições impessoais e estranhos, e, somos mais propensos a descobrir em breve, que estas instituições são muito frágeis." 
"O número ideal de participantes num círculo de dádiva é 10 a 20. Cada um se senta num círculo e diz uma ou duas necessidades que por turnos. No último círculo que presenciei, algumas das necessidades foram: 'uma boleia ao aeroporto na próxima semana,' 'alguém para remover um gradeamento,' 'madeira usada para construir um jardim,' 'uma escada para limpar o meu esgoto,' 'uma mota,' e 'mobília de escritório para um centro comunitário.' À medida que cada pessoa partilha, outras no círculo conseguem entrar para se oferecerem para partilhar a necessidade declarada, ou com sugestões de como a encontrar. 
Quando todos têm a sua vez, damos a volta ao círculo de novo, cada pessoa declara algo que ele ou ela gostaria de dar. Alguns exemplos da semana passada foram 'aptidões de design gráfico,' 'o uso das minhas ferramentas,' 'contactos no governo local para tratar de coisas,' e 'uma mota,' mas podia ter sido qualquer coisa: tempo, habilidades, coisas materiais, uma dádiva de algo directo, ou a dádiva do uso de alguma coisa (emprestar). Novamente, à medida que cada pessoa partilha, qualquer um pode falar e dizer, "Gostaria disso," ou "Sei de alguém que podia dar uso a isso." 
Durante ambas estas rondas, é útil ter alguém que anote tudo e envie as notas no próximo dia via email, ou numa página web, blogue, etc. Caso contrário é muito fácil esquecer quem precisa e oferece o quê. Também, sugiro anotar, na hora, o nome e o número de alguém que quer dar ou receber algo de\para si. É essencial dar seguimento, ou o círculo acabará por alimentar cinismo em vez de comunidade. 
Finalmente, o círculo pode fazer uma terceira ronda na qual as pessoas exprimem gratidão pelas coisas que receberam desde o último encontro. Esta ronda é extremamente importante porque na comunidade, o testemunho da generosidade dos outros inspira generosidade naqueles que estão a testemunhá-la. Isso confirma que este grupo está a dar uns aos outros, que as dádivas são reconhecidas, valorizadas e reciprocadas também. 
É tão simples quanto isso: necessidades, dádivas e gratidão. Mas os efeitos podem ser profundos. 
Primeiro, círculos de dádiva (e qualquer economia de dádiva, na realidade) consegue reduzir a dependência do mercado tradicional. Se as pessoas nos derem coisas que precisamos, não precisaremos de as comprar. Não será necessário apanhar um táxi para o aeroporto amanhã, e Rachel não terá de comprar madeira para o seu jardim. Quanto menos usamos dinheiro, menos tempo passaremos a tentar ganhá-lo e mais tempo teremos para contribuir para a economia de dádiva e então receber dela. É um círculo vicioso. 
Secundariamente, um círculo de dádiva reduz a nossa produção de lixo. É ridículo bombear petróleo, minar metal, fabricar uma mesa e a enviar para o outro lado do oceano quando metade das pessoas na cidade têm mesas velhas nas suas caves. É ridículo também que cada casa no meu bairro tenha um corta-relvas, que usam duas horas por mês, um soprador de folhas que usam duas vezes por ano, ferramentas que usam para um projecto ocasional e assim por diante. Se partilhássemos estas coisas, não sofreríamos perda de qualidade de vida. Nossas vidas materiais seriam tão ricas, contudo necessitariam de menos dinheiro e menos desperdício." 
"..A mesma transição para a dádiva está a caminho no reino social. Muitos de nós já não aspiram à independência financeira, o estado no qual temos tanto dinheiro que não precisamos de depender de ninguém para coisa alguma. Hoje, cada vez mais, ansiamos em vez disso por comunidade. Não queremos viver num mundo de comodidades, onde tudo o que temos existe pela meta principal de lucro. Queremos coisas criadas por amor e beleza, coisas que nos conectem mais profundamente às pessoas ao nosso redor. Desejamos ser interdependentes, não independentes. O círculo de dádiva e muitas novas formas da economia de dádiva que estão a surgir na Internet, são maneiras de reclamar os relacionamentos humanos do mercado. 
Seja natural ou social, a reclamação da riqueza comum baseada na dádiva não só acelera o colapso do sistema monetário dependente do crescimento, ela também mitiga a sua severidade. No presente momento, o mercado enfrenta uma crise, meramente uma de uma multiplicidade de crises (ecológicas e sociais) que estão a convergir sobre nós. Pelo tempo turbulento que está sobre nós, a sobrevivência da humanidade e a nossa capacidade de construir um novo tipo de civilização incorporando um novo relacionamento à terra e uma nova e mais conectada identidade humana, dependem destes restos da riqueza comum que somos capazes de preservar ou reclamar. Embora tenhamos feito graves danos à terra, vasta riqueza ainda permanece. Há ainda riqueza no solo, água, culturas e biomas deste planeta. Quanto mais persistirmos sob o status quo, menos dessa riqueza permanecerá e mais calamitosa a transição será. 
Num nível menos tangível, quaisquer dádivas que doemos contribuem para outro tipo de riqueza comum, um reservatório de gratidão que zelará por nós em tempos de turbulência, quando as convenções e histórias que ostentam a sociedade cívica se desmoronarem. Dádivas inspiram gratidão e generosidade é infecciosa. Cada vez mais, leio e escuto histórias de generosidade, desinteresse, até magnanimidade que me tiram a respiração. Quando testemunho generosidade, quero ser generoso também. Nos tempos vindouros, quereremos a generosidade, o desinteresse e a magnanimidade de muitas pessoas. Precisamos das dádivas uns dos outros como precisamos da generosidade uns dos outros para nos convidar a nós mesmos para o reino da dádiva. Em contraste com a era do dinheiro onde podemos pagar por tudo e não precisamos de dádivas,  em breve será abundantemente claro: precisamos uns dos outros."
~ Charles Eisenstein, Círculo de Dádivas
http://www.shareable.net/blog/a-circle-of-gifts 

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